Amigos,
só quem vive em um mundo cor-de-rosa imaginário se recusa a ver isso... Conheço dúzias de passagens bíblicas (sim, já li de cabo a rabo esse repositório de absurdos, como apologia explícita à escravidão e ao genocídio de crianças e mulheres) que endossam o que o pastor está dizendo logo abaixo.
Só quem é cristão sabe: de acordo com a Bíblia, o infiel NÃO É FILHO DE DEUS! (portanto, não é irmão do cristão...). Note bem: infiel é qualquer pessoa que não seja cristão. O infiel é só uma criatura de Deus, como uma árvore ou um cachorrinho. Só APÓS A CONVERSÃO, ele se torna filho de Deus POR ADOÇÃO, porque Jesus é o único filho de Deus.
A amizade com o infiel só se justifica enquanto oportunidade para pregação. Isso é claro e ensinado abertamente (entre os cristãos - claro que não é algo muito político de se dizer fora das igrejas). Já passei muito por essa situação. Algum cristão muito esperto apenas finge interesse por sua religião, faz perguntas, etc., mas pura hipocrisia - eu já vi a estratégia sendo ensinada claramente em manuais de evangelização.
A Bíblia exorta claramente em numerosas passagens o fiel a não se associar com os mundanos, a não ser quando forem enviados "como ovelhas no meio de lobos" (Jesus) - ou, como deveríamos dizer, como "lobos em pele de ovelhas em meio às ovelhas"? Afinal, quem são os lobos mesmo aqui??
A verdadeira fraternidade humana é incompatível com o sectarismo. Diferenças de opiniões, preferências ou crenças são desejáveis e tornam o mundo um lugar muito interessante, desde que uma posição não atente contra a dignidade humana ou contra direitos civis plenamente justificados.
Feliz Dia do Amigo!
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Merece ser divulgado...
Quarta, 20 de julho de 2011, 08h16
O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo
Reinaldo Marques/Terra Em junho, Marcha das Vadias em São Paulo serviu de protesto contra declarações sobre estupro |
Marcelo Semer
De São Paulo
De São Paulo
Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se.
O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.
Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?
Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.
O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.
Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.
De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.
Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.
No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.
É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.
O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.
Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.
E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.
Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.
Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.
Nós já sabemos onde isto vai dar.
O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.
O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.
Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.
Fale com Marcelo Semer: marcelo_semer@terra.com.br ou siga @marcelo_semer no Twitter
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI5250800-EI16410,00-O+moderno+reacionario+e+a+porta+de+entrada+do+velho+fascismo.html
sexta-feira, 24 de junho de 2011
MARCHA DO ÓDIO...
Amigos, o fundamentalismo religioso é uma doença social e espiritual, altamente contagiosa, alimentada pelo senso comum e pelo subjetivismo que se acha muito inteligente, pela ausência de formação científica adequada nas escolas espertamente mantidas por igrejas, pelo emocionalismo barato sendo explorado por pregadores gananciosos...
Observem as lideranças evangélicas nacionais dessa "marcha para Jesus"... Marcelo Crivella (da Igreja Universal - sem comentários...), Silas Malafaia (vocês já viram esse indivíduo falando na tv? Eu nunca vi alguém mais violento e raivoso, pior que Bolsonaro!), Estevam Hernandes (sim, o "apóstolo" da ex-igreja de Kaká que foi preso tentando entrar nos EUA com milhares de dólares escondidos em bíblias!)...
ISSO é cristianismo. Sua própria Bíblia diz: "pelos seus frutos os conhecereis". Esses são os frutos do cristianismo. Parem de se enganar: eles são A REGRA E NÃO A EXCEÇÃO. Sofreram lavagem cerebral (os seguidores -- porque no caso dos líderes, duvido totalmente de sua sinceridade!) e acreditam cegamente que estão fazendo a vontade de um ser supremo (que, pasmem, seria o bem supremo e a sabedoria suprema).
Para se defender, como não têm argumentos lógicos, usam "pérolas de sabedoria" do tipo: "os cientistas são todos ateus, portanto, não leve a sério o que eles falam" (exceto na hora de recorrer aos avanços científicos, porque não são burros - usam o que lhes convém do jeito que lhes convém...) ou "os juízes do STF que apoiaram por unanimidade os direitos civis para lgbts são todos manipulados por Satanás"... etc... O que pode ser dito diante de tanto non sense? São simplesmente INCAPAZES de raciocinar OBJETIVAMENTE. É inútil e frustrante tentar argumentar!
Parem de se enganar tentando tapar o sol com a peneira. O falso discurso do "Jesus te ama e eu também" ou "Deus ama o pecador, mas detesta o pecado" são estratégias para desarmar a vítima incauta, que geralmente está vulnerável emocionalmente por algum motivo. Essas estratégias são cuidadosamente ensinadas aos evangelizadores. Coloquem diante deles situações delicadas como aborto, pesquisa com células-tronco embrionárias, direitos civis para homoafetivos, etc., e vejam o "amor de Jesus" em ação...
Aconteceu comigo há alguns anos: eu estava participando de um encontro multirreligioso (sim! com dezenas de líderes de religiões diferentes, de várias partes do mundo - tinha até rabino judeu e sheik islâmico abraçados!). No intervalo entre as conferências, eu estava conversando com uma amiga do lado de fora do prédio quando um grupo de jovens evangélicos fundamentalistas (que não estavam participando do evento) apareceu panfletando suas mensagens de "amor". Um rapaz muito gentil e sorridente se aproximou de nós, distribuiu os panfletos e disse o bordão "Jesus te ama". Automaticamente, eu sorri de volta e retribuí "Krishna e Buddha também te amam". O rapaz se transfigurou numa imagem de ódio e começou a gritar que eu estava zombando de "Deus", até que seus correligionários o levaram. Esse missionário não foi bem treinado o suficiente para dissimular o que está por trás da mensagem de "amor" deles. Minha amiga e eu ficamos chocados.
Talvez não seja possível evitar a "nova Idade Média", mas não podemos simplesmente nos calar. Os profetas do ódio podem ser encontrados em qualquer esquina, no seu ambiente de trabalho, no vizinho da frente ou do lado da sua casa, disfarçados de "gente boa, tranquila". Pensem, observem à sua volta e vejam se não é verdade... Na parede de um consultório, no rodapé de um outdoor, num cartão de apresentação, no adesivo de um carro, etc. é fácil ver como "dão testemunho". Quando se junta ou quando vota, o exército da intolerância faz muito barulho, e sente muita confiança em seu número. São muito desunidos em suas facções, mas extremamente unidos para combater os "infiéis".
Não precisamos fazer tanto barulho quanto eles, se agirmos de maneira unida e consciente, votando certo, não nos deixando enganar, estudando e se informando, educando nossas crianças, promovendo a educação científica, participando de movimentos sociais. Pensem nisso. Façam a diferença, mesmo que não haja muita esperança... Nunca se sabe... A omissão simplesmente não é uma alternativa.
Observem as lideranças evangélicas nacionais dessa "marcha para Jesus"... Marcelo Crivella (da Igreja Universal - sem comentários...), Silas Malafaia (vocês já viram esse indivíduo falando na tv? Eu nunca vi alguém mais violento e raivoso, pior que Bolsonaro!), Estevam Hernandes (sim, o "apóstolo" da ex-igreja de Kaká que foi preso tentando entrar nos EUA com milhares de dólares escondidos em bíblias!)...
ISSO é cristianismo. Sua própria Bíblia diz: "pelos seus frutos os conhecereis". Esses são os frutos do cristianismo. Parem de se enganar: eles são A REGRA E NÃO A EXCEÇÃO. Sofreram lavagem cerebral (os seguidores -- porque no caso dos líderes, duvido totalmente de sua sinceridade!) e acreditam cegamente que estão fazendo a vontade de um ser supremo (que, pasmem, seria o bem supremo e a sabedoria suprema).Para se defender, como não têm argumentos lógicos, usam "pérolas de sabedoria" do tipo: "os cientistas são todos ateus, portanto, não leve a sério o que eles falam" (exceto na hora de recorrer aos avanços científicos, porque não são burros - usam o que lhes convém do jeito que lhes convém...) ou "os juízes do STF que apoiaram por unanimidade os direitos civis para lgbts são todos manipulados por Satanás"... etc... O que pode ser dito diante de tanto non sense? São simplesmente INCAPAZES de raciocinar OBJETIVAMENTE. É inútil e frustrante tentar argumentar!
Parem de se enganar tentando tapar o sol com a peneira. O falso discurso do "Jesus te ama e eu também" ou "Deus ama o pecador, mas detesta o pecado" são estratégias para desarmar a vítima incauta, que geralmente está vulnerável emocionalmente por algum motivo. Essas estratégias são cuidadosamente ensinadas aos evangelizadores. Coloquem diante deles situações delicadas como aborto, pesquisa com células-tronco embrionárias, direitos civis para homoafetivos, etc., e vejam o "amor de Jesus" em ação...
Aconteceu comigo há alguns anos: eu estava participando de um encontro multirreligioso (sim! com dezenas de líderes de religiões diferentes, de várias partes do mundo - tinha até rabino judeu e sheik islâmico abraçados!). No intervalo entre as conferências, eu estava conversando com uma amiga do lado de fora do prédio quando um grupo de jovens evangélicos fundamentalistas (que não estavam participando do evento) apareceu panfletando suas mensagens de "amor". Um rapaz muito gentil e sorridente se aproximou de nós, distribuiu os panfletos e disse o bordão "Jesus te ama". Automaticamente, eu sorri de volta e retribuí "Krishna e Buddha também te amam". O rapaz se transfigurou numa imagem de ódio e começou a gritar que eu estava zombando de "Deus", até que seus correligionários o levaram. Esse missionário não foi bem treinado o suficiente para dissimular o que está por trás da mensagem de "amor" deles. Minha amiga e eu ficamos chocados.
Talvez não seja possível evitar a "nova Idade Média", mas não podemos simplesmente nos calar. Os profetas do ódio podem ser encontrados em qualquer esquina, no seu ambiente de trabalho, no vizinho da frente ou do lado da sua casa, disfarçados de "gente boa, tranquila". Pensem, observem à sua volta e vejam se não é verdade... Na parede de um consultório, no rodapé de um outdoor, num cartão de apresentação, no adesivo de um carro, etc. é fácil ver como "dão testemunho". Quando se junta ou quando vota, o exército da intolerância faz muito barulho, e sente muita confiança em seu número. São muito desunidos em suas facções, mas extremamente unidos para combater os "infiéis".
Não precisamos fazer tanto barulho quanto eles, se agirmos de maneira unida e consciente, votando certo, não nos deixando enganar, estudando e se informando, educando nossas crianças, promovendo a educação científica, participando de movimentos sociais. Pensem nisso. Façam a diferença, mesmo que não haja muita esperança... Nunca se sabe... A omissão simplesmente não é uma alternativa.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Testemunho pessoal...
(Escrevi esse texto em 2009, e publico com algumas modificações, mas ainda corroboro os argumentos apresentados...)
Testemunho para meus amigos - reflexões sobre o especismo (discriminação baseada na espécie) e vegetarianismo
Fui ovo-lacto-vegetariano "radical" (ou seja, não ingeria nenhum animal morto - só ovos não-fecundados, laticínios e produtos de origem vegetal) por cerca de dez anos. Minhas motivações eram principalmente éticas, embora apoiadas por dados científicos. Comprei muitas brigas, mas também "converti" uma boa dezena de pessoas ao vegetarianismo - algumas permanecem fiéis à dieta até hoje.
Deixei o vegetarianismo há alguns anos por uma recomendação terapêutica que hoje considero bastante infundada (não necessariamente falsa, mas não comprovada como parecia ser) de que pessoas do meu tipo sanguíneo (O) por razões x e y precisavam da ingestão de carne vermelha. Falei para o terapeuta que eu me recusava a comer vacas e porcos, mas que tentaria comer peixes e aves. Superando a repulsa natural de um organismo que abandonou o carnivorismo, consegui, aos poucos, voltar a me alimentar de "cadáveres de animais"...
Não preciso dizer que não vi absolutamente nenhuma vantagem (mas um monte de desvantagens!), durante esses anos todos, em comer carnes, exceto a facilidade em me "misturar" com outras pessoas carnívoras em refeições coletivas e em encontrar comida em restaurantes - é incrível como os carnívoros gostam de colocar carne em tudo (até no arroz e em saladas de verduras!!!). A outra vantagem - que só um vegetariano entenderia - foi parar de ouvir piadas e de ser ridicularizado em público!
Mesmo sendo brincadeira, e nem sendo mais eu estritamente vegetariano, considero de mau gosto, fazer piadas ridicularizando as motivações éticas para o vegetarianismo, porque é uma insensibilidade ignorante e perigosa diante de um dilema ético muito importante de nosso tempo. Por exemplo: "cadáveres de animais - como você, vegetariano, chama - são uma delícia, especialmente cozidos ou assados, (risos)..." Para um vegetariano consciente (não alguém que só está seguindo uma dieta da moda para emagrecer), seria quase como dizer: prefiro comer crianças e deficientes mentais bem cozidos, do que crus. Nesse caso, a brincadeira não pareceria grotesca? Pois é assim que ela pareceria aos ouvidos de um vegano... Gostaria de ver argumentos mostrando a diferença ética entre devorar crianças ou outros seres sencientes indefesos e devorar animais não-humanos, argumentos que não apelem para religiões antropocêntricas...
Fora da recomendação pseudodivina, de que os animais não-humanos foram "criados" (diga-se de passagem, por um "deus" à imagem e semelhança do ser humano...) para nos servir, com suas peles, sua força ou sua carne, não há justificativa para o holocausto planetário que ocorre há milhões de anos. Qual a justificativa? Somos mais espertos? Somos superiores? Bem, as mesmas coisas podemos dizer de crianças ou deficientes mentais, não podemos? Ah, diriam talvez: mas nesse caso são seres humanos!! Eu responderia: e daí? Não entendo logicamente porque o mero apelo ao seu status de homo sapiens é uma evidência automática de sua superioridade... Ou será que os humanos são melhores e mais importantes simplesmente porque nós somos humanos, e o nosso time (partido/religião/orientação sexual/etc.) é sempre o melhor? Resumindo, não conseguimos justificar, não é?
Vamos colocar assim: imagine se, no jogo da seleção natural, outra espécie, além da nossa, tivesse desenvolvido um nível muito mais avançado de inteligência ou tivesse habilidades superiores às humanas (como, em nosso caso, temos em relação aos não-humanos: andar ereto, ter um polegar oposto aos outros dedos da mão, habilidades linguísticas refinadas, etc.)... Isso justificaria moralmente que essa outra espécie nos escravizasse e cultivasse em rebanhos para usar nossa carne, nossa pele ou nossa força bruta, ou nos usasse para pesquisa científica, abrindo nossos corpos sem anestesia enquanto estamos vivos e conscientes por horas? Não justificaria? Por qual razão mesmo? Claro que isso seria particularmente hediondo se ficasse comprovado que essa hipotética espécie nem sequer precisasse se alimentar de seres humanos!
A ciência já mostrou que os animais são mais do que meros bifes ambulantes ou espécies de "máquinas vivas" sem autoconsciência, como acreditava Descartes e pregam as religiões ocidentais. Algo que toda pessoa que cria um animal doméstico sabe: os animais não-humanos têm emoções, sentem dor e têm consciência (fazem escolhas, trocam informações complexas e têm personalidades peculiares).
Há décadas (pelo menos desde a década de 70), sabemos que muitos animais não-humanos são racionais e capazes não só de linguagem mas também de resolver problemas complexos e criar ferramentas novas, sem falar no fato de que eles sentem emoções (inclusive pânico diante da sua própria morte e angústia ao observar a morte de entes queridos - alguns inclusive pranteiam seus mortos em fascinantes rituais mesmo quando os cadáveres destes já estão reduzidos a ossos, como é o caso dos elefantes) e alguns dão clara demonstração de autoconsciência, entabulam conversas inteligentes entre si (golfinhos) e compõem complexas, originais e demoradas peças musicais a cada ano (baleias). Caso queiram pesquisar, tenho farto material científico a respeito da inteligência animal - a ciência que estuda o comportamento e a inteligência de nossos parentes darwinianos é chamada de etologia.
Pois bem, acredito firmemente que uma pessoa razoável só come carne sem peso na consciência se for ignorante dessas informações ou, tendo as informações, não refletiu sobre as consequências éticas de seu ato, excetuando-se, claro, os que não têm alternativa por viverem em locais extremos (como o povo Innuit ou outros que moram em locais onde não há vegetação comestível).
A lenha para a fogueira dessa controvérsia tem a ver com nossa suposta necessidade de consumo de carnes! Para mim, esse debate está totalmente ultrapassado por dois motivos: o estudo de nossa anatomia e fisiologia (humanas) diferem radicalmente de espécies realmente carnívoras (que têm diferenciações digestivas importantes para processar a carne ingerida) ou mesmo onívoras, e o fato de que mais de um terço da população humana mundial vive dietas primaria ou exclusivamente vegetarianas há milênios. Mesmo a maioria dos médicos e nutricionistas, habitualmente tendenciosos na defesa de seu carnivorismo, dão o braço a torcer ao admitir que é melhor consumir pouca carne!! Sem falar que todos os nutrientes de que precisamos podem ser fartamente encontrados no reino vegetal... Trata-se apenas de uma questão de nutrição balanceada. (Ninguém está sugerindo que se deixe de comer carne e passe a comer mal, mas que passe a comer melhor ainda!).
Para encerrar, em resposta a outra frequente piada do sempre falacioso senso comum: "daqui a pouco, vão dizer que tudo causa câncer, até os vegetais!", nunca ouvi dizer que vegetais comestíveis, pelo menos os cultivados organicamente, causem doenças, a não ser em pessoas que tenham alguma intolerância geneticamente herdada.

E, além disso, em resposta a outra crítica que ouvi dezenas de vezes, comer vegetais não é crueldade, pelo menos não no mesmo sentido que matar animais para comer. Essa é a mais estúpida das falácias, usada até à exaustão em tom de ironia, pelos humanos carnívoros, que, via de regra, não estão nem um pouco preocupados com essa ou aquela crueldade, mas com ridicularizar os veganos. O ponto óbvio é que não temos, enquanto humanos, alternativa dietética no caso da ingestão de vegetais (diferente do caso da ingestão de animais!), e, até onde eu saiba, vegetais não têm sistema nervoso nem cérebro para sentir dor ou desenvolver consciência no sentido como conhecemos.
Atualmente, é raro eu tocar nesse assunto com quem quer que seja, sem que tenha sido solicitado a fazê-lo por alguém sincero. As pessoas simplesmente não têm interesse ou temem pensar sobre esse assunto. Também há tanta desinformação e preconceito envolvidos que alguns indivíduos têm uma forte reação emocional a respeito, se tornam agressivos e não conseguem pensar com clareza. Mas, tenho a esperança de que a postagem em um blog deixe a informação disponível para quem está pronto para processá-la.
Testemunho para meus amigos - reflexões sobre o especismo (discriminação baseada na espécie) e vegetarianismo
Fui ovo-lacto-vegetariano "radical" (ou seja, não ingeria nenhum animal morto - só ovos não-fecundados, laticínios e produtos de origem vegetal) por cerca de dez anos. Minhas motivações eram principalmente éticas, embora apoiadas por dados científicos. Comprei muitas brigas, mas também "converti" uma boa dezena de pessoas ao vegetarianismo - algumas permanecem fiéis à dieta até hoje.Deixei o vegetarianismo há alguns anos por uma recomendação terapêutica que hoje considero bastante infundada (não necessariamente falsa, mas não comprovada como parecia ser) de que pessoas do meu tipo sanguíneo (O) por razões x e y precisavam da ingestão de carne vermelha. Falei para o terapeuta que eu me recusava a comer vacas e porcos, mas que tentaria comer peixes e aves. Superando a repulsa natural de um organismo que abandonou o carnivorismo, consegui, aos poucos, voltar a me alimentar de "cadáveres de animais"...
Não preciso dizer que não vi absolutamente nenhuma vantagem (mas um monte de desvantagens!), durante esses anos todos, em comer carnes, exceto a facilidade em me "misturar" com outras pessoas carnívoras em refeições coletivas e em encontrar comida em restaurantes - é incrível como os carnívoros gostam de colocar carne em tudo (até no arroz e em saladas de verduras!!!). A outra vantagem - que só um vegetariano entenderia - foi parar de ouvir piadas e de ser ridicularizado em público!
Mesmo sendo brincadeira, e nem sendo mais eu estritamente vegetariano, considero de mau gosto, fazer piadas ridicularizando as motivações éticas para o vegetarianismo, porque é uma insensibilidade ignorante e perigosa diante de um dilema ético muito importante de nosso tempo. Por exemplo: "cadáveres de animais - como você, vegetariano, chama - são uma delícia, especialmente cozidos ou assados, (risos)..." Para um vegetariano consciente (não alguém que só está seguindo uma dieta da moda para emagrecer), seria quase como dizer: prefiro comer crianças e deficientes mentais bem cozidos, do que crus. Nesse caso, a brincadeira não pareceria grotesca? Pois é assim que ela pareceria aos ouvidos de um vegano... Gostaria de ver argumentos mostrando a diferença ética entre devorar crianças ou outros seres sencientes indefesos e devorar animais não-humanos, argumentos que não apelem para religiões antropocêntricas...
Fora da recomendação pseudodivina, de que os animais não-humanos foram "criados" (diga-se de passagem, por um "deus" à imagem e semelhança do ser humano...) para nos servir, com suas peles, sua força ou sua carne, não há justificativa para o holocausto planetário que ocorre há milhões de anos. Qual a justificativa? Somos mais espertos? Somos superiores? Bem, as mesmas coisas podemos dizer de crianças ou deficientes mentais, não podemos? Ah, diriam talvez: mas nesse caso são seres humanos!! Eu responderia: e daí? Não entendo logicamente porque o mero apelo ao seu status de homo sapiens é uma evidência automática de sua superioridade... Ou será que os humanos são melhores e mais importantes simplesmente porque nós somos humanos, e o nosso time (partido/religião/orientação sexual/etc.) é sempre o melhor? Resumindo, não conseguimos justificar, não é?
Vamos colocar assim: imagine se, no jogo da seleção natural, outra espécie, além da nossa, tivesse desenvolvido um nível muito mais avançado de inteligência ou tivesse habilidades superiores às humanas (como, em nosso caso, temos em relação aos não-humanos: andar ereto, ter um polegar oposto aos outros dedos da mão, habilidades linguísticas refinadas, etc.)... Isso justificaria moralmente que essa outra espécie nos escravizasse e cultivasse em rebanhos para usar nossa carne, nossa pele ou nossa força bruta, ou nos usasse para pesquisa científica, abrindo nossos corpos sem anestesia enquanto estamos vivos e conscientes por horas? Não justificaria? Por qual razão mesmo? Claro que isso seria particularmente hediondo se ficasse comprovado que essa hipotética espécie nem sequer precisasse se alimentar de seres humanos!
A ciência já mostrou que os animais são mais do que meros bifes ambulantes ou espécies de "máquinas vivas" sem autoconsciência, como acreditava Descartes e pregam as religiões ocidentais. Algo que toda pessoa que cria um animal doméstico sabe: os animais não-humanos têm emoções, sentem dor e têm consciência (fazem escolhas, trocam informações complexas e têm personalidades peculiares).Há décadas (pelo menos desde a década de 70), sabemos que muitos animais não-humanos são racionais e capazes não só de linguagem mas também de resolver problemas complexos e criar ferramentas novas, sem falar no fato de que eles sentem emoções (inclusive pânico diante da sua própria morte e angústia ao observar a morte de entes queridos - alguns inclusive pranteiam seus mortos em fascinantes rituais mesmo quando os cadáveres destes já estão reduzidos a ossos, como é o caso dos elefantes) e alguns dão clara demonstração de autoconsciência, entabulam conversas inteligentes entre si (golfinhos) e compõem complexas, originais e demoradas peças musicais a cada ano (baleias). Caso queiram pesquisar, tenho farto material científico a respeito da inteligência animal - a ciência que estuda o comportamento e a inteligência de nossos parentes darwinianos é chamada de etologia.
Pois bem, acredito firmemente que uma pessoa razoável só come carne sem peso na consciência se for ignorante dessas informações ou, tendo as informações, não refletiu sobre as consequências éticas de seu ato, excetuando-se, claro, os que não têm alternativa por viverem em locais extremos (como o povo Innuit ou outros que moram em locais onde não há vegetação comestível).
A lenha para a fogueira dessa controvérsia tem a ver com nossa suposta necessidade de consumo de carnes! Para mim, esse debate está totalmente ultrapassado por dois motivos: o estudo de nossa anatomia e fisiologia (humanas) diferem radicalmente de espécies realmente carnívoras (que têm diferenciações digestivas importantes para processar a carne ingerida) ou mesmo onívoras, e o fato de que mais de um terço da população humana mundial vive dietas primaria ou exclusivamente vegetarianas há milênios. Mesmo a maioria dos médicos e nutricionistas, habitualmente tendenciosos na defesa de seu carnivorismo, dão o braço a torcer ao admitir que é melhor consumir pouca carne!! Sem falar que todos os nutrientes de que precisamos podem ser fartamente encontrados no reino vegetal... Trata-se apenas de uma questão de nutrição balanceada. (Ninguém está sugerindo que se deixe de comer carne e passe a comer mal, mas que passe a comer melhor ainda!).
Para encerrar, em resposta a outra frequente piada do sempre falacioso senso comum: "daqui a pouco, vão dizer que tudo causa câncer, até os vegetais!", nunca ouvi dizer que vegetais comestíveis, pelo menos os cultivados organicamente, causem doenças, a não ser em pessoas que tenham alguma intolerância geneticamente herdada.

E, além disso, em resposta a outra crítica que ouvi dezenas de vezes, comer vegetais não é crueldade, pelo menos não no mesmo sentido que matar animais para comer. Essa é a mais estúpida das falácias, usada até à exaustão em tom de ironia, pelos humanos carnívoros, que, via de regra, não estão nem um pouco preocupados com essa ou aquela crueldade, mas com ridicularizar os veganos. O ponto óbvio é que não temos, enquanto humanos, alternativa dietética no caso da ingestão de vegetais (diferente do caso da ingestão de animais!), e, até onde eu saiba, vegetais não têm sistema nervoso nem cérebro para sentir dor ou desenvolver consciência no sentido como conhecemos.
Atualmente, é raro eu tocar nesse assunto com quem quer que seja, sem que tenha sido solicitado a fazê-lo por alguém sincero. As pessoas simplesmente não têm interesse ou temem pensar sobre esse assunto. Também há tanta desinformação e preconceito envolvidos que alguns indivíduos têm uma forte reação emocional a respeito, se tornam agressivos e não conseguem pensar com clareza. Mas, tenho a esperança de que a postagem em um blog deixe a informação disponível para quem está pronto para processá-la.
Reflexões sobre o especismo...
Qual é mesmo a diferença entre cães/gatos e vacas/porcos/aves/etc., quando se trata de merecerem nosso amor ou nos importarmos com seu bem-estar? Nossa cegueira?Quando vamos nos render às evidências (inclusive com abundante documentação científica!) de que muitos animais não-humanos são inteligentes, capazes de raciocínio (sim! já sabemos disso há décadas: sem treino prévio, fazem contas, resolvem complicados quebra-cabeças, usam linguagem para ensinar tarefas a outros, improvisam ferramentas para conseguir alimento - e não estou falando só de animais altamente inteligentes como chipanzés, elefantes e golfinhos, mas também de aves e roedores!), capazes de sentir dor física e emocional como nós (imaginem uma vaca vendo os filhos sendo cruelmente abatidos por conta de sua carne tenra, ou os filhotes vendo isso acontecer com os pais - eles literalmente choram de dor!), etc?
Ficamos chocados com crueldade contra crianças, mas a maioria dos animais torturados durante toda sua vida e cruelmente mortos para alimentar nosso excêntrico paladar são capazes de raciocínio equivalente ou superior às nossas crianças humanas. Além disso, sentem medo, dor, angústia, luto, pânico, stress, etc. Por que com crianças humanas ficamos chocados e com animais (e seus filhotes) não? Pensem.
Estamos falando de seres autoconscientes. Existem testes muito convincentes para se determinar isso. E mesmo os que não sabemos com certeza se são autoconscientes, são certamente capazes de sentir dor (têm nervos, cérebro, gritam e desmaiam de dor, etc.). Você sabe o que é sentir dor? Por que não liga para a dor do animal sendo torturado lentamente e morto de maneira cruel? Se refletirmos sobre nossa atitude, não me parece muito diferente da do psicopata que não consegue se importar com a dor de sua vítima. A vítima está sentindo uma coisa chamada "dor", mas isso não é algo com que ele se identifica. Essa "dor" do outro lhe é estranha, não tem nada a ver com a dor que ele, o psicopata, o torturador da ditadura militar, o nazista, é capaz de sentir.
Para os que acham que isso é catequização, reflitam. A catequização subestima sua capacidade de raciocinar por si mesmos. É o que a cultura e as religiões dogmáticas fazem conosco. Aqui apresentamos subsídios para raciocínios. É o que a ciência e a filosofia fazem. DES-catequizarem a gente.
Gostamos de nos colocar como a espécie mais importante do planeta. Mas, isso do ponto de vista de quem? do nosso, claro! Se fizermos um esforço de imaginação e nos colocarmos do ponto de vista do ecossistema, da complexa rede de espécies ou mesmo de algo como o próprio planeta, o que seria mais vantajoso para eles: que a espécie humana tivesse aparecido ou não no jogo da seleção das espécies?
Food for thought... Material para reflexão, não?
(Apesar do tom emocional desta mensagem, existe farto material científico e ético para quem aceitar o desafio da reflexão. E se alguém quiser discutir o assunto objetivamente, também estou à disposição...)
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